SAUDADE DOS AVIÕES DA PANAIR(CONVERSANDO NO BAR) 1975Milton Nascimento
Lá vinha o bonde no sobe e desce ladeiraE o motorneiro parava a orquestra um minutoPara me contar casos da campanha da ItáliaE do tiro que ele não levouLevei um susto imenso nas asas da PanairDescobri que as coisas mudamE que tudo é pequeno nas asas da PanairE lá vai menino xingando padre e pedraE lá vai menino lambendo podre delíciaE lá vai menino senhor de todo o frutoSem nenhum pecado, sem pavorO medo em minha vida nasceu muito depois...Descobri que minha arma é o queA memória guarda dos tempos da PanairNada de triste existe que não se esquecaAlguém insiste e fala ao coracãoTudo de triste que existe e não se esqueceAlguém insiste e fere no coracãoNada de novo existe nesse planetaQue não se fale aqui na mesa do barE aquela briga e aquela fome de bolaE aquele tango e aquela dama da noiteE aquela mancha e a fala ocultaQue no fundo do quintal morreuMorri a casa diaDos dias que eu viviCreveja que tomo hoje éApenas em memóriaDos tempos da PanairA [primeira Coca-Cola foiMe lembro bem agoraNas asas da PanairA maior das maravilhas foiVoando sobre o mundoNas asas da PanairEm volta dessa mesa velhos e mocosLembrando o que já foiEm volta dessa mesa, existem outrasFalando tão igualEm volta dessas mesas existe a ruaVivendo seu normalEm volta dessa rua, uma cidadeSonhando seus metaisEm volta da cidade...........